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Chapéus em palha famosos na Festa do Avante feitos por artesã de Fafe

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Imagens: Blogue Falaf Magazine (2013)

As mãos de Fátima Nogueira, enrugadas por 77 anos a minuciar a palha, transformando-a em chapéus, agora famosos na Festa do Avante ou no Turismo da Madeira, são guardiãs de uma tradição centenária de Fafe.

Hoje já leva 81 anos de vida, mas começou a fazer tranças de palha de centeio com quatro anos, herdando a tradição de várias gerações. Com seis começou a coser chapéus à mão.

“As crianças faziam este repique. Era como começavam a trabalhar”, contou, enquanto trabalhava num cantinho da sua casa e lembrava como tudo começou na alvorada da década de 40, do século passado.

“Foi a minha mãe que me ensinou, mas a minha bisavó já trabalhava a palha à mão. Naquele tempo, toda a gente fazia palha em Golães, agora não”.

Ainda hoje, em algumas freguesias do concelho é frequente ver-se mulheres, a maioria idosas, que, à porta de casa, em dias soalheiros, muitas vezes em grupo, fazem tranças de palha, horas a fio, que são depois cosidas e moldadas com talento único em peças de rara beleza.

Com o rosto aquecido pelo sol de S. Martinho que perpassava a janela, Fátima foi lembrando a época distante em que “havia muitas casas que viviam só da palha”.

A certa altura começaram a abrir fábricas “e o povo começou a deixar”, contou.

Atualmente, a octogenária chega a trabalhar mais de 12 horas por dia, tantas são as encomendas. Só para a Festa do Avante são muitas centenas, garantiu. Mas de Braga e do Porto chegam muitos pedidos.

“Faço muita coisa. Estou sempre a criar coisas novas que têm muita saída”, explicou, enquanto apontava para alguns exemplos.

No seu espaço de trabalho, para além do cheiro típico da matéria-prima, abundam, de facto, peças em palha muito diferentes, para além dos chapéus de mil formas e tamanhos, para elas e para eles, desde os sacos de compras, carteiras coloridas de senhora, abanadores, bonés de bebés, cestos para roupa suja e objetos para guardar bolos ou queijo da serra, apreciados, destacou, pelas suas faculdades para preservarem os alimentos.

Em Golães, outrora terra de moinhos de água no rio Vizela, a cerca de quatro quilómetros da sede do concelho, ainda trabalha outra senhora, que é prima da “Fatinha”, como é conhecida na aldeia. Um pouco mais nova, Maria Nogueira já vai, contudo, nos 74 anos de idade e, como a parente, trabalha a palha desde criança.

“Havia muita pobreza e os pais começavam logo a meter as crianças a fazer palha”, contou, acrescentando que “Os meus fregueses, que já eram da minha mãe, vêm aqui a casa”. Muitos dos seus chapéus, adiantou, orgulhosa, têm como destino a ilha da Madeira.

A artesã, reformada, conta que vende tudo o que produz nas horas vagas das lides de casa, nos fundos da sua habitação, admitindo ser um extra no rendimento da família.

Apesar disso, exclamou: “Isto paga-se muito pouco e dá muito trabalho”.

As duas primas concordaram que só deixarão de trabalhar a palha quando a saúde não permitir e lamentam que a juventude não queira aprender.

Golães é uma das freguesias de Fafe que tem tradição naquele tipo de manufatura. A junta local inaugurou, este domingo, um museu que homenageia e pretende criar condições para manter a tradição, numa antiga escola primária, que foi recuperada.

Ali estão expostos vários objetos e pode-se conhecer o ciclo de criação com recurso a modernas tecnologias multimédia.

Filipe Silva, o autarca da freguesia, contou que também está previsto um ateliê para jovens ‘designers’ poderem desenvolver novas peças em palha e, eventualmente, incorporando novos materiais, como a madeira ou a cortiça.

“Queremos incentivar os mais novos a dar continuidade a este tipo de artesanato que é muito procurado”, destacou, avançando que será aberto um concurso de ideias para jovens estudantes ajudarem a criar novos trabalhos.

 

[efsnotification type=”alert” style=”” close=”false” ]CONTACTO: Avenida da Igreja, 129, Golães. – TEL. 253 494 474[/efsnotification]

 

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