“Caso é conhecido há muito tempo”, diz autor da reportagem sobre racismo na polícia

O MINHO conversou com o jornalista do Setenta e Quatro

Um assunto que foi frequente na agenda noticiosa da segunda quinzena de novembro foi o escândalo que envolveu 591 agentes de autoridades nas redes sociais, com membros de diferentes forças policiais a fazer apelos de violação de mulheres, violência e comentários de ódio. O caso já teve desdobramentos e O MINHO conversou com o autor da reportagem.

O caso surgiu no portal Setenta e Quatro, e a reportagem “Polícias sem lei” foi produzida pelos jornalistas Filipe Teles e Pedro Coelho, que lideram um consórcio português de jornalismo de investigação, que inclui jornalistas, advogados e académicos.

Filipe Teles lembra que nunca houve uma investigação sobre o assunto deste tamanho.

“Os precursores foram os próprios investigadores, há dois anos. A base de dados foi entregue ao Setenta e Quatro pelos investigadores e partilhada com o consórcio de jornalistas, que começaram a escavar. Em relação ao impacto e a profundidade dessa investigação, a essa escala, é inédita”, explica Filipe Teles.

A reportagem deu conta que alegadamente quase 600 membros da PSP e GNR, a maioria no ativo, usam as redes sociais para violar a lei ao escreverem mensagens racistas e que incitam ao ódio.

Segundo a investigação jornalística, mais de três mil publicações de militares da GNR e agentes da PSP, nos últimos anos, mostram que as redes sociais são usadas para fazer o que a Lei e os regulamentos internos proíbem.

“Os nossos investigadores digitais têm muito menos meios e recursos que as instituições competentes. O problema é conhecido há muito tempo. Tanto a Inspeção-Geral da Administração Interna, quanto o Ministério Público e a PSP não quiseram olhar a fundo e fazer a investigação devida”, disse Filipe, que acrescenta:

“As reações instantâneas são boas. O impacto que o trabalho teve foi positivo. Houve a reação de abertura de inquérito da Procuradoria-Geral da República e a reação do Ministro a ordenar a IGAI (Inspeção-Geral da Administração Interna) que investigasse as publicações realizadas por esses agentes”.

Após a divulgação do trabalho jornalístico, o Governo anunciou que a IGAI vai abrir um inquérito. Também a Procuradoria-Geral da República já anunciou que abriu um inquérito a estas publicações.

Na quarta-feira, a Inspetora-Geral da Administração Interna, o comandante-geral da GNR e o inspetor nacional da PSP estiveram reunidos para analisarem o plano elaborado pela IGAI para prevenir qualquer forma de discriminação nas polícias.

“Espero que a coisa não fique debaixo do tapete. Houve uma reação expressiva de cidadãos preocupados e a agradecerem o trabalho realizado. Portanto parece que terá feito as pessoas olharem para o problema de fato. Não é provável que fique por isso mesmo”, diz o jornalista.

Segundo a Inspeção-Geral da Administração Interna, a reunião pretendeu reforçar a “prevenção e combate a condutas discriminatórias, incitadoras do ódio e violência contra determinadas pessoas ou difusoras de juízos ofensivos da honra ou consideração de terceiros por parte de agentes das forças de segurança, na sequência das recentes notícias sobre a alegada publicação de mensagens daquele teor nas redes sociais”.

No final do encontro, a inspetora-geral da Administração Interna, o comandante da GNR e o inspetor nacional da PSP manifestaram “a vontade veemente de combater qualquer tipo de comportamento discriminatório” nas polícias.

Uma reação que também causou polémica foi a de André Ventura. O líder do Chega acusou o Governo, de ter uma “atitude persecutória” e de “humilhação” dos polícias e afirmou vai denunciar o caso à Comissão Europeia. Filipe Teles não mostrou-se surpreso com a reação do deputado.

“A reação do Chega é a mesma de sempre. Nada de novo. São mesmas táticas e não atrapalham o trabalho de investigação”, criticou.

O Bloco de Esquerda também manifestou-se e pediu audição de ministro sobre “denúncias de atos ilícitos” de membros da PSP e GNR.

Ontem, a Associação Nacional de Oficiais da Guarda (ANOG) considerou que os alegados casos de comportamentos racistas de militares da GNR devem ser “meticulosamente investigados” pelas entidades competentes e “internamente pela Guarda” para serem aplicadas “as medidas adequadas”.

 
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