Um casal de Santa Marta de Portuzelo, em Viana do Castelo, doou uma casa à Junta de Freguesia com o objetivo de ali criar “um centro de apoio educativo e didático, quer para alunos com mais dificuldades sócio-económicas, e que não têm o privilégio de terem familiares com o ensino superior, quer para pessoas de outras nacionalidades que não dominem a língua portuguesa”.
A doação da “Casa Enes” foi oficializada, ontem, numa cerimónia em que esteve presente a família do casal, José António Antunes de Araújo e Maria Elizabete Dias Martins, o presidente da Câmara de Viana, Luís Nobre, e o autarca da freguesia, Nuno Ferraz.
José Araújo contou que “a decisão da doação da Casa Enes foi tomada em seio familiar”, tendo sido a esposa “a principal impulsionadora dessa iniciativa”.
“O objetivo da doação foi unânime: criar, na terra que me viu crescer, um centro de apoio educativo e didático, quer para alunos com mais dificuldades sócio-económicas, e que não têm o privilégio de terem familiares com o ensino superior, quer para pessoas de outras nacionalidades que não dominem a língua portuguesa”, desenvolve.
“E porquê este objetivo? Desde que me conheço, que sempre atribuí muita importância à educação e aos professores que impulsionavam os alunos a serem mais e melhores. Dois professores que tive ficaram-me na memória pelos melhores motivos. A professora Amélia, na Escola Básica de Santa Marta, foi um exemplo do compromisso, exigência e rigor com a profissão, e a ela lhe devo o gosto por números e cálculos. Quando emigrei para França, com nove anos, também o Maître Olivier marcou a minha história. Tendo à sua frente um aluno que não dominava o francês, o Maître Olivier conseguiu perceber o meu nível de competências, avaliando-me pela linguagem universal da matemática, aquela que tinha sido tão bem trabalhada pela professora Amélia. Desta forma, chamou-me ao quadro e pediu-me para que resolvesse as 4 operações aritméticas, o que o fiz com facilidade, passando automaticamente para a 2º classe. Para além disso e a título pessoal, o Maître Olivier levou a sua função para lá das horas estabelecidas, ensinando-me o francês depois das aulas acabarem”, recorda.

















Por isso, o benemérito pede que duas das salas da “Casa Enes” tenham os nomes daqueles professores e a terceira sala o nome da sua esposa, Maria Elisabete Martins, “que sempre exerceu a profissão docente com inquestionável dedicação”.
“Gostaria ainda de dizer que a experiência da emigração, muitas vezes marcada por desafios significativos como a adaptação cultural, as barreiras linguísticas e a saudade, deveria ser um alicerce para uma maior empatia e compreensão. Com grande pena constato que algumas pessoas, após terem superado essas adversidades noutros países, não demonstram o mesmo acolhimento e solidariedade para com os novos imigrantes. Parece-me que isto representa uma perda de memória coletiva e uma falha na reciprocidade de valores humanos fundamentais”, lamenta José Araújo.
“A intenção de contribuir para o desenvolvimento da minha terra natal é uma forma de retribuição pela prosperidade económica que alcancei. A decisão de deixar um legado nesta terra é um testemunho de gratidão e um compromisso com o futuro. Este gesto não se limita a uma simples doação, mas sim a um investimento no bem-estar e no desenvolvimento local, assegurando que o meu percurso de sucesso sirva de inspiração e benefício para as gerações vindouras”, justifica, rematando: “Termino passando o testemunho à comunidade e às minhas filhas para que prossigam com este projeto que só agora ganhou forma. A etapa mais difícil começa agora. Vamos ao trabalho”.