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Viana do Castelo

Bibliotecária ucraniana a viver em Viana do Castelo faz arte de papel de jornal

Artesanato

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Mariana Fagurel partiu da Ucrânia rumo a Portugal e, em Viana do Castelo, trocou a profissão de bibliotecária pela arte de transformar papel de jornal ou plástico usado em peças decorativas que apelam à preservação do planeta.

Aos 48 anos, as mãos de Mariana já criaram “milhares de peças”, dando novo destino a “centenas de quilogramas de jornais” que vai pedindo a quem deles já não precisa, de cartão que recolhe em supermercados ou plásticos que quem conhece o seu ofício lhe faz chegar.

Árvores de Natal, carrinhos de bebés, vasos, cestos e muitos outros objetos, uns apenas decorativos e outros com várias utilidades, nascem de papel de jornal, cartão e plástico usados corda, entre outros materiais.

“É algo que faço com a convicção de que temos de proteger, parar, sermos amigos do ambiente, da natureza, da nossa casa comum, o planeta”, alertou.

Há 20 anos, à procura de melhores condições de vida, que a profissão de bibliotecária não lhe garantia na terra natal, a emigração foi o caminho escolhido por Mariana Fagurel.

“Não era fácil sobreviver na Ucrânia sem pedir, constantemente, ajuda aos pais. Não havia grandes condições para as pessoas do ramo da cultura puderem sobreviver. Emigrei para tentar melhorar, um bocadinho, a economia pessoal e depois regressar”, explica a ucraniana que escolheu Portugal para recomeçar.

“Tive a sorte de vir para um país maravilhoso, que é Portugal. Sou sincera no que estou a dizer. Fui bem acolhida, adorei as pessoas com quem lidei desde o primeiro dia, o clima, e a gastronomia”, disse.

O “conforto” de conhecer uma família que já residia em Viana do Castelo pesou na escolha da cidade, capital do Alto Minho.

Apesar do “amor” pelo país de origem, Areosa é hoje a sua “casa”. Na freguesia urbana, banhada pelas águas atlânticas e envolta pelos montes de São Mamede e Santa Luzia, encontrou o marido e constituiu família.

Sempre desejou “integrar-se, em pleno, na nova comunidade” que a acolheu, para se “sentir bem, feliz, em casa”.

“Consegui. Sinto-me feliz aqui e só tenciono regressar à Ucrânia para férias. Viana do Castelo é a terra do nosso filhote. É estranho dizer que me sinto em casa. Adoro o meu país de origem, mas sinto-me mais estrangeira lá, do que cá”, admite Mariana.

A artesã tem “muita esperança de um dia ver a Ucrânia na grande família europeia e ser também a casa de todos”, como há 20 anos Portugal foi a casa que procurava.

Em 2012, com 39 anos, a maternidade despertou-a para a necessidade de encontrar um novo ofício que lhe permitisse ficar em casa “ao lado filhote”, garantir “algum rendimento” para o orçamento familiar e continuar a luta pela sustentabilidade ambiental.

O gosto pelas artes incentivou a artesã autodidata, que recorreu aos conhecimentos de bibliotecária para “pesquisar formas de fazer algo” que estivesse ao seu “alcance”.

“Sempre vivi no mundo das artes, das pinturas, dos livros. A minha alma está virada para essa área. Por coincidência, encontrei na Internet umas peças feitas com material reciclado, fui tentando perceber, aprender e experimentar”, explica Mariana, agora com 48 anos.

A primeira peça, um copo em papel de jornal que ainda guarda, não saiu “muito perfeita”, mas com o tempo tomou “gostou do processo” e foi perfeiçoando a arte de criar.

Fala tranquila e pausadamente porque, explica, o “vocabulário” português “ainda não permite um discurso perfeito”.

Conta que a “arte” que cria, com a ajuda do marido, Hélder Mendes, deu lugar a uma pequena empresa.

Está “registada nas finanças” em seu nome e vai “garantindo, mais ou menos, o sustento da família”.

“Há alturas melhores e há outras que nem tanto, mas vamos tentando abrir portas novas. Se calhar ainda não chegámos à porta certa para podermos dizer que sim, que este trabalho dá para manter a família”, afirmou.

A idade de Mariana “não permitiu que a família crescesse”. No país que a acolheu, não voltou a exercer a profissão para a qual estudou, mas está “certa” de que tomou a melhor opção de vida.

A cada criação procura atingir a “perfeição”, empregando “muita dedicação e amor”.

“Tentamos sempre fazer melhor, nem sempre conseguimos, mas o principal motivo de nos leva a não abandonar este modo de vida, porque o sustento não é fácil, é o de querermos lutar contra tudo o que não é correto. O mercado está invadido por objetos, todos tão iguais, e muitos feitos por crianças”, lamentou.

Reportagem de Andrea Cruz, da agência Lusa.

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