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Asteróide “potencialmente perigoso” passa hoje perto da Terra (e só volta em 2105)

Tem mais de um quilómetro de comprimento e viaja a uma velocidade de cerca de 70 mil quilómetros por hora

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Meteoro que caiu na Rússia em 2013. Foto: DR

O asteróide 1994 PC1, avaliado como “potencialmente perigoso” devido ao tamanho (mais de um quilómetro), vai passar esta noite ao lado da Terra, podendo ser observado com recurso a telescópio cerca das 21:50 (hora portuguesa), disse a O MINHO o astrofísico Nuno Peixinho. O astro foi descoberto a 09 de agosto de 1994 e, desde então, tem sido monitorizado, apontando o dia 18 de janeiro de 2022 como o perigeu (ponto mais próximo da Terra). Tem mais de um quilómetro de comprimento e viaja a cerca de 70 mil quilómetros por hora.

Apesar de ter essa catalogação, de “potencialmente perigoso”, a realidade é que a grande massa rochosa não constitui verdadeiro perigo, pois passará a uma distância equivalente cinco vezes à que separa a Terra da Lua (cerca de 2 milhões de quilómetros). Contudo, caso acabe por se partir enquanto por ‘cá’ passa (muito pouco provável), os pedaços mais pequenos podem acabar por colidir com a Terra, e provocar alguns estragos.

Nuno Peixinho, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço – Universidade de Coimbra, salienta que este asteróide, à semelhança dos restantes, vem da cintura localizada entre os planetas Marte e Júpiter, e segue em rota elíptica à volta do sol. “Apesar da ideia que os asteróides da cintura só orbitam aquela região, a mesma não é verdade, pois há muitos que descrevem uma órbita mais torta e acabam por, eventualmente, passar próximo de outros planetas”, explicou.

A rosa, a órbita do asteróide. A Azul, a órbita da Terra. Imagem: DR

É o caso do 1994 (ano em que foi descoberto), que demora cerca de um ano e meio a completar a órbita ao volta do Sol, mas só voltará a passar próximo à Terra no dia 18 de janeiro de 2105, devido à posição do nosso planeta não se voltar a encontrar no mesmo local até essa data.

O cientista reconhece que “tem havido um esforço cada vez maior para identificar os asteróides, revelando que cerca de 90% dos que têm mais de um quilómetro já foram observados. Contudo, há uma grande percentagem de dimensões menores que ainda está por identificar, e que podem representar perigo para o nosso planeta.

“Notou-se muito o efeito psicológico de um meteorito que caiu na Rússia (em 2013), porque foi um acordar para a realidade, ou seja: não é preciso ser muito grande para causar muitos estragos”, explica Nuno Peixinho.

Refere-se ao meteorito que caiu em Chelyabinsk, a 15 de fevereiro de 2013, e que provocou ferimentos em mais de 1.000 pessoas, embora não haja registo de mortes. Peixinho explica que os ferimentos deveram-se à onda de choque, que partiu vidros enquanto as pessoas ‘espreitavam’ pelas janelas, e não à explosão do meteorito.

“Conta-se que houve uma professora primária que, quando viu o clarão, e porque tinha o treino de Guerra Fria, mandou os alunos todos para debaixo da mesa, assumindo que era uma explosão nuclear e que depois vinha a onda de choque”, recorda, explicando que os feridos foram atingidos por vidros de janelas que partiram.

É que, depois do clarão que assolou os céus daquela cidade, as pessoas foram às janelas “espreitar”, não antecipando que a onda de choque chegaria passado alguns minutos. E quando chegou, os ‘curiosos’ estavam com a cara próxima dos vidros, que se partiram, e causaram ferimentos. Quase todos os edifícios daquela região sofreram danos nas janelas.

“E esse só tinha cerca de 15 metros”, constata o astrofísico.

O futuro da mineração

Nuno Peixinho aproveitou ainda para falar um pouco sobre os potenciais ganhos económicos que viajam no espaço a bordo dessas pedras. Uma delas passa pela água.

“Acho que se pode dizer que os asteróides são o futuro da mineração, e esse futuro não está muito distante – talvez daqui a 50 anos”, considerou.

E o que significa minerar asteróides. É exatamente isso que está a pensar. Mandar para lá equipamento de mineração e começar a extrair os minerais que lá existem. E um deles, a água, poderá ser o mais rentável, devido ao preço da mesma no espaço.

“Para pousarmos no asteróide não há problema, porque estamos a andar à mesma velocidade. No entanto é preciso ter atenção à questão da gravidade, que será mínima, uma vez que o astro tem pouca massa”, explica, avaliando a utilização de “arpões” como uma solução viável.

Nuno Peixinho explica que um litro de água custa 10 mil dólares no Espaço, apenas pelos gastos do transporte: “Se conseguirmos minerar água nos asteróides, a mesma vai ficar infinitamente mais barata para os astronautas”. Aponta ainda outros elementos utilizados na eletrónica que estão presentes em asteróides, mas crê que ainda será preciso existir um “trilionário” no nosso mundo para que se comece a minerar em larga escala e com lucro.

“Não acredito que fique trilionário só com minerar um asteróide”, diz, refutando a convicção do astrofísico americano Neil deGrasse Tyson,  “porque os primeiros não serão tão rentáveis. e só depois, quando fizerem as contas e percebam que dá lucro, é que o vão fazer”.

Sem sabermos ao certo quais as próximas datas da exploração espacial (nem Elon Musk, um dos maiores empreendedores da área, consegue saber), o que é garantido é a passagem do 1994, a partir das 21:50, junto ao nosso planeta. Mas, para o ver, só com telescópio.

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