“As pessoas devem ser inseridas em meios onde possam criar novos hábitos, não em guetos”

Entrevista com Cláudia Marinho, candidata da CDU à Câmara de Viana
Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

Cláudia Marinho está na corrida autárquica à Câmara de Viana do Castelo, enquanto cabeça de lista da CDU. Há quatro anos elegeu-se, como vereadora, sem pelouro, função cívica que concilia com a sua profissão de educadora social. A educação familiar empurrou-a para o PCP. Nascida em 1974, apresenta-se como filha de Abril: “Não me resigno à primeira”. Há 15 anos, na faculdade, Ilda Figueiredo, professora de economia social e militante do partido, cativou Cláudia Marinho para a militância. Trabalhadora e estudante durante vários anos, Cláudia iniciou a sua atividade profissional, com 18 anos, no gabinete de atendimento à família em Viana do Castelo. Após 25 anos, coordena uma equipa de rua, que trabalha a área das substâncias lícitas e ilícitas, “redução do risco e minimização do dano associado ao consumo”.

Como concilia o seu trabalho de educadora social com a função de vereadora?

A área social, infelizmente, é uma área que só é lembrada, quando os problemas são visíveis e iminentes. Mas o problema social está presente em todo lado, eu tento afastar-me do meu lado profissional e do meu lado vereadora. Posso ter cometido alguma injustiça, todos cometemos, mas tento afastar as coisas.

Quais são os principais flagelos sociais de Viana do Castelo?

Acredito que são generalizados por todo o país. Vemos uma pobreza escondida, presente no centro urbano, mas também nos arredores. O alcoolismo predomina como malefício, altamente destrutivo, tanto para o indivíduo que consome, como para a família, caso a mesma ainda exista. Depois as outras substâncias, que eu não distingo entre drogas leves e pesadas, isso não existe, existem substâncias, que é o caso do consumo de cocaína e do consumo de canábis. Há uma situação que tem vindo a agravar-se muito: a habitação. Há cada vez mais sem abrigo em Viana do Castelo.

As respostas de Habitação Social no concelho são suficientes?

Viana não tem um Centro de Acolhimento de Emergência. Há apenas uma comunidade de inserção. Esta é uma das dificuldades do concelho. Todos os parceiros sociais de Viana do Castelo procuram uma resposta eficiente para pessoas com consumos ativos a precisar de um abrigo. Recentemente, no inverno, a autarquia arranjou uma solução de pernoita temporária, para estas pessoas. Mas foi precisamente isso, temporária. É difícil fazer uma omeleta sem ovos.

Jerónimo de Sousa esteve na apresentação da candidata. Foto: Joca Fotógrafos / O MINHO

Qual é a análise que faz à governação socialista de Viana do Castelo nos últimos quatro anos?

No primeiro ano atribuí uma “nota” suficiente ao plano anual de atividades do executivo em maioria. Este ano não posso, de forma alguma, dizer que tem sido um trabalho satisfatório. É um trabalho um pouco em banho-maria. Não é um trabalho positivo. A questão da água deita tudo por terra. Na altura da campanha eleitoral de 2017, o PS sabia que a gestão da água do município ia parar a uma empresa, mas ocultou sempre essa informação da população.

Quais foram os principais erros da governação socialista na Câmara de Viana?

A estratégia da habitação foi sempre empurrada com a barriga. Agora começa a ser falada, mas já podia ter sido falada há muito mais tempo. O problema maior da habitação que subsiste em Viana é não haver habitação com um preço acessível. Se um jovem não pode aceder a subsídios do Estado, por múltiplas razões, então não tem forma praticamente nenhuma de conseguir uma habitação, de forma autónoma.
A Habitação Social que existe em Viana do Castelo é escassa. Uma parte pertence à autarquia, outra ao IHRU, mas não é suficiente para fazer face à procura. Depois há outro problema: quase todos os Fogos de Habitação Social são de tipologia T2, e uma pessoa que queira viver sozinha não consegue, porque não se cede um fogo habitacional, que pode ser utilizado por uma família, com três elementos no agregado, a uma pessoa que esteja a viver sozinha. Depois há falta de fiscalização, por parte da autarquia e também do IHRU, para perceber como evoluem os agregados ao longo do tempo, se vão aumentando, diminuindo ou até desaparecendo. Tudo isto é um problema, principalmente quando nos deparamos com alugares de T1 com valores astronómicos. E, se preferirmos ir viver para uma freguesia, não encontramos grande oferta, porque a habitação em maior massa está no centro urbano.
Os métodos e as políticas de habitação social também devem ser discutidas, porque as pessoas devem ser inseridas e reinseridas em meios onde possam criar novos hábitos, não em guetos. Eu não sou a favor de guetos. Uma das medias que pode, e deve ser imposta, quer pelos municípios, quer pelo estado central, são as cooperativas de habitação.

Há muita contestação social às Águas do Alto Minho. Como avalia a posição do atual presidente da Câmara e a gestão do atual executivo na concessão de exploração das Águas do Alto Minho?

Isto já vem de trás. Em 2015, sensivelmente, a autarquia acaba por “dar” a água, um bem essencial, um bem que é nosso e que não pode ter de forma alguma o lucro como arma, a terceiros. Em 2015, a Câmara dá as captações em alta às Águas de Portugal ou às Águas do Norte. O processo começa a ser cozinhado em 2015. Em 2018, 2019, é concretizado. A Câmara vendeu as captações em baixo, à empresa ADAM. Em 2017, durante a campanha eleitoral, o PS sabia que a gestão das águas ia passar para as Águas de Portugal, no entanto não inseriram isso no programa eleitoral, nem o anunciaram. Se não o fizeram, por alguma razão foi.

Cláudia Marinho é vereadora sem pelouro. Foto: Joca Fotógrafos / O MINHO

Acredita que a transferência de gestão das águas municipais, para as Águas de Portugal foi um negócio danoso dos interesses da população vianense?

Eu acho que sim. É uma coisa muito fácil de perceber. Eu compro uma casa, mas após uns anos vendo-a. A casa muda de proprietário, mas eu continuo a investir na casa que vendi, faço obras, e o proprietário faz lucro com a casa, arrenda-a. Primeiro o presidente da Câmara disse que era uma boa estratégia, porque com a agregação das águas (entre vários municípios do Minho) era mais fácil concorrer a fundos comunitários. Depois mudou o discurso. Nós (CDU) desmistificamos isto.
Os serviços municipalizados da altura, já tinham os tarifários tabelados pela entidade reguladora, e o presidente disse que os preços não se alterariam. Esqueceu-se de dizer que iriam surgir novas taxas e outras seriam aumentadas. As obras que estão ser feitas ao nível de saneamento e manutenção dos postos de água estão a ser totalmente pagas pelo orçamento municipal. A água era a maior fonte de receita do município, deixou de o ser, porque quem lucra, agora, é a ADAM. Pior do que isto não pode existir.

Como evoluiu a fatura da água?

Nós criamos um simulador, que está a ser bastante utilizado pela população, “SimulADAM”, e que permite à população precaver-se. A fatura da água de Viana esteve sempre um pouco acima do preço da entidade reguladora. Nós se formos eleitos iremos reverter este negócio, sem sombra de dúvida. Desde o princípio que fomos os únicos, que nos afirmámos determinadamente contra este negócio.

O negócio de prospeção de lítio paira sobre a Serra de Arga. Qual a posição da CDU perante esta indústria?

A paisagem protegida da Serra de Arga pode ser comprometida pela exploração de lítio. A nossa posição foi sempre muito clara, o país deve ter conhecimento dos recursos minerais que existem, mas nunca em detrimento do bem-estar da população e do ambiente, como é óbvio. Por isso, achamos que devem ser suspensas quaisquer diligências, porque não está assegurado o bem-estar da população. As empresas que estão a tentar dominar o lítio são estrangeiras, e nós não estamos de forma alguma a favor da destruição da Serra de Arga.

Porque devem os vianenses votar na Cláudia Marinho e na CDU?

Devem votar na CDU, porque a CDU sempre esteve do lado das populações. Isso é visível, com o problema da água, com o problema da habitação, com os trabalhadores da autarquia, com os trabalhadores do concelho, e com todos os outros trabalhadores.

 
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