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Alto Minho

“As duas margens do rio Minho cresceram as suas economias com o fim da fronteira”

Entrevista com Xavier Cobas, professor de Economia na Universidade de Vigo

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Xavier Cobas. Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

Xavier Cobas colabora na análise socioeconómica do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial (AECT) Rio Minho; é professor titular de Economia Financeira e Contabilidade na Universidade de Vigo, foi vice-reitor de Relações Institucionais de 2003 a 2006 e comissário de planos estratégicos, entre 2010 e 2018. É membro do Conselho de Administração da “Editorial Galaxia”, referência de qualidade na produção literária Galega. O AECT Rio Minho encomendou a Xavier Cobas o estudo socioeconómico do impacto da política de retoma de fronteiras durante a pandemia da covid-19, entre o Norte de Portugal e a Galiza, com especial enfoque na fronteira “artificial” do rio Minho. 

Estudou o impacto económico e social do encerramento de fronteiras entre o Minho e a Galiza. Qual é o volume da economia transfronteiriça? 

As estatísticas oficiais (2020) dizem que o Norte de Portugal recebeu 5.720 milhões de euros do conjunto de Espanha e fez exportações no valor de 5.275 milhões de euros. A Galiza recebeu 1.702 milhões de euros de Portugal no seu conjunto, e enviou 2.729 milhões de euros para Portugal. Entre os dois territórios há uma forte integração das cadeias de valor no têxtil, automóvel, madeira, pesca, turismo, transporte… Em 2020, o dado do turismo é atípico, porque foi muito baixo, e o turismo cruzado, especialmente o turismo galego em Portugal, é muito forte. As limitações ao turismo pela pandemia desequilibraram algo a balança.

Vive em Seixas (Caminha), mas leciona na Universidade de Vigo. Foi afetado pelo encerramento de fronteiras e pela restrição de mobilidades entre a Galiza e o Minho? 

Sim. Podia passar, como todos os trabalhadores, mas precisávamos de passar pela ponte da autoestrada entre Valença e Tui. A ponte de Vila Nova de Cerveira estava fechada, o que é um problema quando o deslocamento é para os concelhos vizinhos (A Guarda, O Rosal, Tomiño). Na autoestrada houve demoras, porque a documentação dos automobilistas era verificada na fronteira e o Eixo Atlântico mobiliza milhares de veículos diariamente. 

Consegue precisar quantos trabalhadores foram afetados e de que forma? 

O conceito de transfronteiriço é confuso, por isso aplicámos diversos critérios, que em todo o caso colocam um mínimo de 13.283 trabalhadores de nacionalidade espanhola ou portuguesa que trabalham na Eurorregião Galiza – Norte de Portugal, fora do seu Estado de origem.

Xavier Cobas. Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

Contextualizando o interregno da livre circulação de pessoas entre cidades e vilas, de margens opostas do rio Minho, como medida de combate à pandemia da covid-19, crê que foi uma medida adequada? 

Acho que foi inútil. Os governos podem limitar a mobilidade por concelhos, por horários, dependendo dos níveis da pandemia em cada lugar. Isso basta. E foi aplicado nos dois países. O fecho da livre circulação não teve que ver com a pandemia ou o número de infetados, mas com um critério político do passado. E, afinal, também era inútil porque permitia a mobilidade dos bens, o transporte e mesmo o trabalho transfronteiriço, mas prejudicando as pessoas e os territórios de fronteira.

O que ganha o Minho quando estreita laços com a Galiza e o que ganha a Galiza, quando estreita laços com o Minho? 

Há ganhos nos dois territórios porque a complementaridade económica é maior do que a substituição entre os dois. É dizer, juntos são mais competitivos porque aproveitam as vantagens competitivas dos dois. As cadeias de valor empresarial ficam integradas e são mais fortes, e os níveis de produção (PIB) têm um reforço de um maior mercado próprio e dessas capacidades produtivas combinadas.

Xavier Cobas. Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

Durante algumas décadas o rio Minho foi palco de uma economia subversiva lucrativa, como o contrabando. E hoje, qual o valor estimado para as trocas comerciais entre empresas das regiões? 

Hoje, é muito mais forte o lucro da economia formal, os intercâmbios entre a Galiza e o Minho do que foi o contrabando no passado. Os concelhos das duas margens do Minho viram crescer as suas economias com o fim da fronteira. A fronteira era o limite ao desenvolvimento natural do território do Minho.

Quem são os principais agentes de aproximação entre a Galiza e o Minho? 

Os presidentes de Câmara nas duas regiões são grandes agentes, servidos instrumentos como a AECT Rio Minho, a CIM Minho e a Assembleia de Pontevedra. A representação dos empresários também, com a CEVAL, a CEP e a Câmara de Comercio de Tui. Também a própria sociedade, como um todo, pela realidade dos intercâmbios constantes entre pessoas, bens e serviços. A sociedade nas duas beiras acredita no crescimento conjunto.

É possível saber o PIB do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial do Rio Minho? 

Não temos o dado para o conjunto dos concelhos. Trabalhamos o efeito na parte da AECT do Vale do Minho, nas duas beiras, e o valor estimado do PIB (2019) é pouco mais de 2.000 milhões de euros para esses concelhos, mas são unicamente uma parte do conjunto. Estamos a trabalhar com a AECT para ter dados atualizados do conjunto do território.

O rio Minho é uma fronteira ou um ponto de contacto? 

O rio Minho recuperou o seu lugar natural como ponte de contacto da Eurorregião Galiza – Norte de Portugal e o Eixo Atlântico no seu conjunto. É o centro da velha “Gallaecia” Bracarense e beneficia com o fim de uma barreira artificial.

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