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Guimarães

Alta Velocidade em Guimarães via Porto, Braga ou Famalicão? O que diz o estudo

Avaliação da Câmara diz que ‘metrobus’ é a melhor opção

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Imagem ilustrativa / CM Guimarães

O professor da Universidade do Minho e diretor executivo da Fundação Mestre Casais, José Gomes Mendes, apresentou um “Estudo de Apoio à Decisão, para a interconetividade de Guimarães com a Rede Ferroviária de Alta Velocidade”, a pedido da Câmara Municipal. O documento prevê três soluções: uma que privilegia a ligação ao Porto, pela estação de Campanhã, outra através de Famalicão e da Linha do Minho e uma terceira que passa por uma ligação direta a Braga, com um ramal ao Avepark.

“A estação que conhecemos é em Braga e eu considero isso um dado adquirido. Não acredito que vá haver alterações”, afirma o professor. É partindo desta premissa que o especialista produziu o estudo que pretende ajudar os decisores relativamente à melhor solução para ligar Guimarães à rede ferroviária de alta velocidade.

O documento apresenta três alternativas em termos de traçado. A ligação ao Porto, por metro ou comboio (HRT – Heavy Rapid Transit), usando o canal que atualmente já existe. Neste caso, Guimarães ficaria ligado à alta velocidade, não por Braga, mas pela invicta. Esta hipótese, contudo, é posta de lado, desde logo pela densidade populacional não justificar o investimento necessário.

“Não se vislumbra qualquer viabilidade, ao nível da procura, que justifique o pesadíssimo investimento numa solução ferroviária pesada, cujo custo de infraestrutura pode chegar às várias dezenas de milhões de euros por quilómetro, para além de um custo de operação também ele muito elevado”, pode ler-se na apresentação dos resultados preliminares deste estudo. A construção de uma linha para este tipo de comboios pode custar entre 51 e 500 milhões de dólares por quilómetro, indica o documento.

O estudo apresenta três opções de ligação de Guimarães às estações de alta velocidade. Imagem: CM Guimarães

Uma segunda solução preconiza uma ligação, em canal dedicado, à Linha do Minho (já existente), através de Famalicão e a partir daí fazer o percurso até Braga ou até ao Porto em comboio, para chegar à estação de alta velocidade de uma destas cidades. Esta proposta prevê a instalação de uma linha de metro ligeiro (LRT – Light Rapid Transit) ou de ‘metrobus’ (BRT – Bus Rapid Transit). Apesar de o professor reconhecer vantagem que seria a melhoria da ligação entre Guimarães e Famalicão, esta solução esbarra no facto de ser a mais demorada (82 minutos para chegar a Braga, com dois transbordos, e 83 minutos para chegar ao Porto, também com dois transbordos).

A terceira solução proposta no estudo, igualmente em canal dedicado e também contemplando a possibilidade de serem usados veículos de metro ligeiro ou ‘metrobus’, é a ligação ao já anunciado sistema de ‘metrobus’ da Cidade dos Arcebispos, com um braço a ligar ao Avepark na zona das Taipas. Por esta via seria possível chegar de Guimarães à estação de alta velocidade, em Braga, em 45 minutos, sem transbordos.

O primeiro braço de uma rede para ligar o Quadrilátero

José Gomes Mendes classifica o valor estratégico desta opção afirmando que “esta opção melhoraria significativamente a ligação de Guimarães a Braga, afastando o risco de isolamento face à Alta Velocidade e ao Quadrilátero e de perda de atratividade de Guimarães em termos de localização de empresas e residentes”. Para o especialista e ex-secretário de Estado do Planeamento (XXII Governo), Adjunto da Mobilidade e Adjunto do Ambiente (XXI Governo), esta conexão poderia, além do mais, ser a “primeira perna de um sistema de transporte de alta performance, em via dedicada, a ligar as quatro cidades do Quadrilátero, tal como tem sido reivindicado pelos autarcas”.

O professor lembra, invocando a sua experiência governativa, que a mobilização dos decisores para projetos deste tipo não se faz apresentando a empreitada como um todo, o que faz com que seja rejeitada, à partida, pelos custos elevados.

No que toca à mobilidade no interior do concelho, José Gomes Mendes, destaca que esta linha pode ser a “primeira de um sistema de transporte em via dedicada em Guimarães, servindo o eixo saturado da EN 101, a vila de Caldas das Taipas e o Avepark”.

O ‘metrobus’ é a solução mais barata

Em função dos valores apresentados no Plano de Recuperação e Resiliência para este tipo de projetos – 300 milhões de euros –, José Gomes Mendes, apela ao pragmatismo. “Estima-se como aceitável uma expectativa de acesso a um montante de financiamento da ordem dos 100 milhões de euros”, avança.

É esta limitação orçamental que leva o especialista a aconselhar o ‘metrobus’ em detrimento do metro ligeiro. “A linha de LRT [metro ligeiro] teria um custo de 301,5 milhões de euros, enquanto a solução BRT [metrobus] tem um custo de 79 milhões de euros”, diz no documento. No que toca ao custo dos veículos, no caso do metro ligeiro, cada um ronda o três milhões de euros, já os autocarros para usar na via dedicada custam 700 mil euros cada um.

O custo de um parque de manutenção e operações para autocarros também é substancialmente mais baixo que para o metro ligeiro porque, neste caso, é necessário “acesso por carril e oficinas específicas para material ferroviário”. A opção ‘metrobus’ também fica a ganhar quando se compara o prazo de execução, dois a três anos, contra três a quatro anos para instalar uma linha de metro ligeiro.

Pesando as vantagens e desvantagens de cada opção, o BRT direto a Braga aparece como solução vencedora. Imagem: CM Guimarães

José Gomes Mendes fez questão de sublinhar que a criação desta ligação por BRT entre Guimarães e Braga, com um ramal ao Avepark, não inviabiliza que no futuro se possa evoluir para uma solução de metro ligeiro, no mesmo canal.

O Governo continua a fazer contas com a linha ferroviária existente

Na apresentação pública do Plano Nacional Ferroviário, feita ontem, em Lisboa, o Governo anunciou que a alta velocidade vai “servir as dez maiores cidades do país”. Guimarães é apenas o 14.º concelho em população, mas excluindo os municípios que fazem parte das zonas metropolitanas de Lisboa e Porto, só Braga tem mais população, portanto é razoável pensar que está entre a dezena de cidades de que fala o Governo.

De facto, nos mapas da apresentação não surge identificada nenhuma linha a ligar a Guimarães, além da que que já existe. O Governo, contudo, diz que Guimarães ficará a 02:15 de Lisboa, quando Braga estiver a duas horas.

Esta previsão choca com o estudo de José Mendes Gomes que estima que, na melhor das hipóteses, Guimarães ficará a 45 minutos da estação de alta velocidade e daí 02:00 de Lisboa, ou seja, um tempo total de viagem de 02:45.

O Governo coloca faz as contas com o transbordo no Porto para o comboio urbano. Imagem: Governo / Plano Nacional Ferroviário

As contas do Governo parecem apontar para que alguém que viagem de Lisboa ao Porto, em alta velocidade (01:20), apanhe depois o já existente comboio urbano que demora entre 50 minutos e uma hora a chegar a Guimarães, perfazendo aproximadamente 02:15.

Olhando para o problema desta forma, a conexão a Braga, tal como a propõe José Gomes Mendes, não aumenta a velocidade de ligação de Guimarães ao Porto e a Lisboa. Serve, isso sim, as populações em todo o eixo entre Guimarães e Braga, particularmente no troço entre a Cidade Berço e as Taipas, onde existem duas vilas e se concentra uma fatia significativa da população do concelho.

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