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A verdadeira história do Bananeiro de Braga. E de Viana

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Manuel Rio, 95 anos, natural de Lanheses, Viana do Castelo, começou com o Bananeiro na sua loja Casa das Bananas em Braga. O estabelecimento está hoje entregue a um dos seus filhos, Manuel Jorge, mas a tradição vem de longe.

Foto: O MINHO

“Para não deitar fora as bananas quando ficavam muito maduras, oferecia-as aos clientes. A quem bebesse um cálice de moscatel, dava uma banana, e como as duas coisas sabiam bem, as pessoas repetiam e começaram a vir”, contou.

Segundo o antigo comerciante, a ideia teve-a quando já levava mais de 20 anos de negócio a correr de feição. Abriu a sua primeira loja em Viana ao 28 anos, que batizou de Riolanda, juntando o seu apelido ao nome da sua mulher.

Foto: O MINHO

Mais tarde, aos 50, tomou conta da Casa das Bananas em Braga, e foi aí que o Bananeiro surgiu e cresceu, chegando àquilo que é hoje.

“Braga tem muitos emigrantes e quando vinham pelo Natal, apareciam lá para beber Moscatel e comer bananas. Começaram a vir cada vez mais, cada vez mais e as pessoas já bebiam na rua”, recorda, lembrando: “Aquilo foi de tal maneira que cheguei a vender uma camioneta de Moscatel e a ter que colocar grades nas prateleiras para não me roubarem as garrafas”.

Foto: Divulgação

Quando com o avançar da idade, Manuel Rio decidiu entregar a loja de Braga a um dos seus dois filhos, Manuel Jorge, e voltar à Riolanda, a tradição estendeu-se também a Viana do Castelo. Sem contudo nunca ter atingido a dimensão que tem na cidade onde nasceu.

A loja de Viana fechou-a há dois anos quando Iolanda morreu.

Bananeiro em Braga começou em 1972 ou 73

Em Braga, o empresário José Alberto Carvalho Araújo, conhecido como Zé das Bicicletas ou Professor de Matemática foi, talvez, o primeiro, com um grupo de meia dúzia de pessoas, a ir ao bananeiro: “ia eu, o Alfredo Barbosa (o Midats) e três ou quatro trabalhadores da loja PicPic, da rua do Souto”, contou a O MINHO.

José Carvalho Araújo. Foto: O MINHO

“Começou 1972 ou 73. Íamos ao fim do dia, e ocupávamos uma sala interior do bananeiro. Só bebíamos moscatel, sem comer banana e às escondidas”, frisou.

O conhecido bracarense, hoje septuagenário, que é uma figura como que lendária da cidade, diz que o fenómeno cresceu com a abertura do novo café Peninsular, na rua 25 de abril: “o Midats parava lá e começou a levar mais gente. Aos poucos começaram a ir os lojistas e funcionários do comércio da zona. E transbordou!”.

A partir de aí foi bola de neve. Muitos bracarenses que vivem fora começaram a ir ao bananeiro sabendo, então, que iriam encontrar velhos amigos, alguns que não viam há anos. E apareceu o hábito da banana com o moscatel.

Hoje, em dia, o Zé, fundador do Externato Carvalho Araújo, quase deixou de aparecer: “vêm-se os amigos mas tem um lado mau: não há onde parar o carro e na rua do Souto anda tudo aos encontrões”.

Outro dos percursores foi o Luís Magalhães Fernandes, jornalista do “Correio do Minho”. Uma das suas reportagens sobre o Bananeiro teve eco nas televisões que, já nos anos 90 do século passado, começaram a reportar o inédito fenómeno. Que já virou tradição.

“Na véspera da Consoada íamos, um grupo de amigos, pela véspera da Consoada à Lusitana beber champanhe ou espumante. Uma dia aborrecemo-nos e passamo-nos para o Bananeiro que é a 50 metros. Começou a vir muita malta, antigos alunos do Liceu e da Escola Carlos Amarante. Acabou em enchente, hoje com muitos jovens”, lembra o jornalista, agora em fase de merecida reforma.

Na cidade, há quem tente replicar o bananeiro, a nível de bairro, com com sucesso incomparavelmente menor. Porque o encontro de bracarenses com o moscatel já tem fama internacional: “até nos Estados Unidos saiu numa grande revista”, sublinha.

Tradição retomada em Viana

Mais de 360 litros de vinho moscatel e 120 quilos de bananas são atualmente servidos no bananeiro de Viana do Castelo, tradição que também atrai milhares de pessoas.

“Este ano compramos mais de 360 litros de moscatel e mais de 120 quilos de bananas. O tempo parece que vai ajudar porque as previsões pelo menos não dão chuva”, afirmou hoje à Lusa, Rogério Martins, presidente do Santa Luzia Futebol Clube, responsável pela organização.

Casa Riolanda. Foto: “Olhar Viana do Castelo”

O costume foi iniciado pela casa Riolanda, especializada em vinhos e licores e por vender as “melhores” bananas de Viana do Castelo. No interior, tinha um pequeno balcão onde servia bebidas, entre elas, o moscatel. O hábito de beber um cálice daquele, acompanhado de uma banana, antes da ceia de Natal surgiu, espontaneamente através de um grupo pessoas.

Em pouco tempo, o número de participantes foi engrossando, deixando de “caber” na loja e estendendo-se às ruas em redor. A tradição cumpriu-se, nestes moldes, pela última vez, no Natal de 2015.

A morte da proprietária levou ao encerramento da loja, depois de mais de 60 anos de atividade.

Casa Riolanda. Foto: “Olhar Viana do Castelo”

Em 2016, a confraternização em torno do cálice de moscatel e da banana foi iniciada pelo Santa Luzia Futebol Clube, como fonte de receita do único clube de futsal feminino do distrito de Viana do Castelo a militar na divisão maior da modalidade.

Nos últimos dois anos, o clube faz a festa a partir de um ´stand’, em madeira, instalado pela Câmara Municipal, a poucos metros da antiga casa Riolanda, na Praça da República, ex-libris da cidade. Na véspera de Natal, a organização espera voltar a registar uma “nova enchente”, numa “manifestação única de convívio e partilha”.

Foto: Divulgação

A iniciativa decorre entre as 10:00 e as 20:00, acompanhada de concertinas e cantares ao desafio.

No final, a organização garante a limpeza da envolvente que, todos os anos, acumula milhares de copos descartáveis e cascas de banana.

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