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Barcelos

A noite em que Barcelos se voltou a pintar de laranja com a ajuda de ex-socialistas

Eleições autárquicas

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Foto: Pedro Luís Silva / O MINHO

Doze anos depois, o PSD voltou a ganhar a Câmara de Barcelos apoiado numa coligação com o CDS e com o movimento independente Barcelos, Terra de Futuro (BTF), fundado pelo ex-vice-presidente da autarquia socialista Domingos Pereira. Mário Constantino é o novo presidente do município, sucedendo a Miguel Costa Gomes, que a dirigiu nos últimos 12 anos. A Coligação conquistou seis lugares de vereação e os socialistas cinco.

Quando, em 2009, o PS surpreendentemente conquistou a Câmara de Barcelos, até então um bastião social-democrata, o líder da concelhia socialista era Domingos Pereira, que gizou a estratégia de apresentar um candidato independente – Miguel Costa Gomes, à época presidente da Associação Comercial e Industrial local – para conquistar o poder na autarquia.

Foto: Pedro Luís Silva / O MINHO

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Ironia do destino, Barcelos volta a pintar-se de laranja em 2021, graças a uma coligação em que o BTF, que Domingos Pereira fundou depois de o presidente da Câmara, atualmente presidente da Concelhia, lhe ter retirado os pelouros em 2016, alegando deslealdades, numa cisão dentro da Câmara e do partido cujas feridas até hoje continuam por sarar.

Portanto, um dos principais responsáveis por apear o PSD do poder em Barcelos, doze anos depois ajuda a levá-lo novamente à presidência da Câmara (e da Assembleia Municipal, para a qual Miguel Costa Gomes foi derrotado por Fernando Pereira).

Foto: Pedro Luís Silva / O MINHO

“Queremos efetivamente mudar Barcelos”

Os resultados ainda eram provisórios, faltavam ainda bastantes freguesias por apurar, mas o avanço que a Coligação levava já dava para perceber que a mudança era irreversível. Pelas 23:26, a Coligação Barcelos Mais Futuro cantava de vitória com uma publicação no Facebook, em que diz que “O futuro começa aqui” e convida para a festa na Praça dos Poetas (junto aos Registos).

Vídeo: Pedro Luís Silva / O MINHO

À porta do Hotel Bagoeira, onde está Mário Constantino e todo o ‘staff’, já estão centenas de pessoas com bandeiras do PSD e da Coligação Barcelos Mais Futuro. Gritam “Mudança”, “É Tino, é Mário, é Mário Constantino”. Cada vez se acumula mais gente na rua, mas a festa é na chamada Praça dos Poetas, a uns 500 metros daquele local, e é para lá que os responsáveis da campanha pedem para que as pessoas se dirijam.

Eram cerca das 00:30 quando Mário Constantino sai do Hotel Bagoeira e faz as primeiras declarações à comunicação social.

Vídeo: Pedro Luís Silva / O MINHO

“É uma responsabilidade muito grande. Estamos naturalmente muito satisfeitos, mas temos uma grande responsabilidade em cima dos ombros”, começa por afirmar o novo presidente da Câmara de Barcelos.

Diz que quer “desenvolver Barcelos, tendo atenção às pessoas”. “Cuidado com a nossa cidade e as nossas freguesias”, reforça o atual vereador, antecipando já medidas concretas: “Fecho da circular urbana, eliminação de passagens de nível, criação de nós para as autoestradas que passam perto de Barcelos para aproveitar a centralidade do nosso concelho”.

E termina a curta declaração com a ideia-chave: “Queremos efetivamente mudar Barcelos”.

“Não vai ser uma liderança bicéfala ou tricéfala”

Segue-se uma arruada até à Praça dos Poetas, onde já uma multidão o aguardava. À chegada, é recebido com euforia. O cântico mais repetido: “É Tino. É Mário. É Mário Constantino”.

Vídeo: Pedro Luís Silva / O MINHO

No púlpito preparado para o efeito discursam, antes do novo presidente da Câmara, o mandatário da candidatura, Carlos Eduardo Reis (filho do último presidente da Câmara social-democrata, Fernando Reis, derrotado em 2009), António Ribeiro, vereador eleito pelo CDS, Domingos Pereira, fundador do BTF e número dois da lista, e Fernando Pereira, que venceu Costa Gomes para a Assembleia.

Nos discursos, ficou a promessa de que – ao contrário do que já muitos vaticinam – não haverá conflitos entre as diferentes fações da coligação. “Não tivemos problemas na campanha e não os vamos ter nos próximos quatro anos”, declarou Carlos Eduardo Reis.

Por seu turno, Domingos Pereira garantiu que “não vai ser uma liderança bicéfala ou tricéfala, vai ser uma coligação muito bem liderada pelo presidente legitimamente eleito, Mário Constantino”.

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“Darei total garantia de que seremos exemplares no exercício de funções do poder, garantindo a maior estabilidade. Sabemos que [esta coligação] vai funcionar e vai funcionar bem”, conclui.

“Muito poucas pessoas acreditavam”

E além das juras de fidelidade, houve também os remoques a quem duvidou da Coligação.

“Nunca tivemos a menor dúvida que Mário Constantino seria eleito pelos barcelenses. Só os detratores da política, que estão na política sem perceber nada de política, é que quiseram impedir e enxovalhar aqueles que sempre tiveram coragem de vencer a Câmara Municipal”, garantiu Domingos Pereira.

Mário Constantino começou o seu discurso, já passava da uma da manhã, perante uma plateia exaltada, precisamente pelo mesmo mote, agradecendo “em primeiro lugar às pessoas que desde a primeira hora acreditaram neste projeto”, referindo-se “concretamente a duas ou três, porque muito poucas pessoas acreditavam”.

Vídeo: Pedro Luís Silva / O MINHO

“Desde logo as nossas famílias e também o Carlos Reis, dr. Domingos Pereira e Filipe Pinheiro”, elencou, sendo de imediato interrompido por uma entusiasta na plateia: “Eu também acreditei”. Gargalhada geral.

Rui Rio destaca vitória em Barcelos

No seu discurso, o presidente do PSD, Rui Rio, sublinhou a conquista em Barcelos, como uma das mais importantes da noite eleitoral, em que o partido ganhou, para surpresa de todos, a Câmara de Lisboa.

Barcelos “foi particularmente difícil”, com “quatro candidatos a guerrearem-se uns aos outros, e escolhemos o certo”, afirmou Rui Rio, puxando para si também o mérito da vitória.

Ora, recorde-se que Mário Constantino foi imposto pela Nacional, após o nome indicado pela Concelhia e aprovado pela Distrital, o empresário João Sousa, não ter passado pelo crivo de Rui Rio.

O processo de seleção do candidato esteve envolto em polémica desde o início. O presidente da concelhia, Bruno Torres, demitiu-se quando o seu nome não foi aprovado, pelo próprio órgão, para ser o candidato. Depois, substituído pelo vice-presidente, António Lima, este obstou sempre a Mário Constantino e à Coligação com o BTF, levando o caso até ao Tribunal Constitucional. Acabou por pedir a demissão quando, por fim, foi derrotado.

Foto: Pedro Luís Silva / O MINHO

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“Desenvolvimento” é a palavra de ordem para Mário Constantino, garantindo que “com toda a certeza” fará aquilo que se propôs. “Não vamos ficar quatro anos de braços cruzados a culpar o que não foi feito nos últimos anos, nós vamos realizar obra”, assegura, deixando uma palavra de conforto aos funcionários municipais: “Vamos valorizar o mérito, seremos exigentes com todos, mas não iremos perseguir ninguém. Todos somos precisos para esta nova dinâmica que queremos imprimir em Barcelos”.

“Vamos concretizar o sonho de ter Barcelos mais desenvolvido”, reiterou Mário Constantino, assegurando que a Coligação se vai manter unida, porque “só com estabilidade se conseguem criar projetos”.

E conclui: “Não queremos voltar a ver Barcelos atrás, Barcelos vai para a frente com todos nós. Todos nós amamos Barcelos”.

O discurso termina em apoteose, há fogo de artifício, tochas e muitas bandeiras no ar. O entusiasmo é grande. Doze anos depois, laranja volta a ser a cor dominante em Barcelos, tendo os velhos adversários como novos aliados.

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