Connect with us

A “Arquitectura do Euro” e o desrespeito pela Ciência Económica

Colunistas

A “Arquitectura do Euro” e o desrespeito pela Ciência Económica

Há muitos comentadores televisivos que pensam saber muito de Economia.

José Gomes Ferreira (JGF) é um desses senhores. Diz ele:

“Para permanecerem no Euro os países têm de seguir uma política de Direita, de responsabilidade orçamental. Nada mais”.

 

“Não existe qualquer erro na arquitectura do Euro pois se todos forem responsáveis financeiramente nada disto aconteceria”.

Pois, ora este senhor não poderia estar mais errado quanto à compreensão do real funcionamento de uma Economia de Mercado.

1. Não existe mão invisível. Uma economia de mercado funciona com base em PREÇOS.

Hayek e os restantes economistas austríacos já há muito ensinaram ao mundo que são os PREÇOS que permitem aos agentes ajustarem os seus comportamentos económicos e se coordenarem nas suas decisões sem qualquer influência de uma entidade terceira.

Os PREÇOS carregam em si uma informação massiva, sendo o resultado das acções de milhares de agentes a decidir comprar, vender e a investir num mercado.

Sem sistema de preços não há forma de os agentes comunicarem entre si.

2. Agora chegamos à questão fundamental. O problema da arquitectura do Euro foi a abolição de uma variável fundamental para o equilíbrio das tocas e competitividade entre nações (Taxa de Câmbio) e a contínua falta de compreensão dos incentivos dados aos agentes por outra variável que foi responsável pelo desencadear próximo da crise (Taxa de Juro).

3. Primeiro, ao abolir-se a taxa de câmbio, aboliu-se a restrição externa da economia.

A Taxa de Câmbio, cuja variação permite transmitir aos agentes (consumidores, produtores, governos) perceber de forma sintética como está a evoluir a competitividade da economia e a relação de troca face ao exterior, desapareceu.

Numa Economia de Mercado a acumulação de deficits externos gera uma redução do valor da moeda que permite aos agentes que consomem importar menos, aos que investem investir mais, e ao Governo ajustar as suas políticas públicas para atacar o problema da competitividade.

Tudo porque o peço relativo das moedas variou! Está lá toda a informação. Fenomenal.

Pós-Euro, tudo isto desapareceu e… puderam-se acumular deficits durante 10 anos, escalar no endividamento externo, expandir as importações sem fim…

E agora dizem-nos: “Estúpidos! Irresponsáveis!”.

Como é que os Governos permitiram isto e não reagiram perante a perda de competitividade?

Como é que os consumidores foram tão irresponsáveis a endividarem-se tanto?

Como foi possível importar a este nível?

Esta é a questão fundamental: os ajustamentos agora estão dependentes dos agentes, proactivamente e por uma compreensão complexa da realidade, ajustarem os seus níveis de consumo/ produção/ investimento.

Por exemplo: sou consumidor e agora, em vez de comprar menos automóveis à Alemanha, porque a minha moeda desvalorizou e o bem ficou mais caro, tenho de ir ler relatórios oficiais de deficits externos acumulados e, munido de uma capacidade de antecipação fabulosa, perceber que se continuar a comprar carros no longo prazo à Alemanha, e se outros agentes também o fizerem, no longo prazo posso vir a sofrer um corte no meu rendimento. Absurdo!

Matou-se o PREÇO, o Santo Graal do Funcionamento do Mercado. A informação que coordena e balanceia os mercados simplesmente desapareceu.

Agora, “os JGF deste mundo”, pedem-nos que sejamos super consumidores, produtores e decisores de política pública munidos de superior inteligência e capacidade de antecipação, tomando decisões contra-natura.

Hayek et all já demonstraram isto há 40 anos atrás.

4. O caso da Taxa de Juro. Houve excesso de endividamento? Houve! E Porquê? Porque as taxas de juro deixaram há muito de ser o veículo que coordena a informação entre quem procura e disponibiliza crédito. Uma vez mais: matou-se o Mercado.

Os preços nos mercados de dívida são determinados e manipulados pelos Bancos Centrais, com taxas diretoras, quantitive easing, promessas de compra e venda de activos.

Como é que Estados super endividados e altamente débeis a subidas de taxas de juro obtêm taxas de juro de 1,7% a 10 anos?

Como é que os Estados e consumidores não haviam de se endividar se puderam aceder a taxas de juro baixíssimas por um período superior a uma década?

Se as taxas de juro são baixas, os agentes endividam-se! É assim que funciona.

Não são os agentes que são estúpidos, estes apenas reagem aos estímulos e informação que lhes é transmitida pelo PREÇO. Estúpidos são aqueles que manipulam e tentam controlar o mercado e depois ficam surpreendidos por os agentes não serem “super agentes”; por não perceberem que afinal o preço do dinheiro não é propriamente confiável e que não o podem considerar nas suas decisões de investimento, consumo e poupança.

Caro senhor José Gomes Ferreira, não aprenda economia nos editoriais do Jornal de Negócios e do Financial Times e não multiplique e difunda essa economia de bolso para os milhares de pessoas que o ouvem e lhe dão algum crédito.

Continuar a ler
Recomendado para si

Mais em Colunistas

Bitnami