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105 anos depois das aparições, pedem-se mais peregrinações à Senhora da Paz, em Ponte da Barca

Virgem terá aparecido ao pastor Severino em 10 e 11 de maio de 1917, antes das aparições de Fátima

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Foto: Paulo Jorge Magalhães / O MINHO

Um novo espaço de estacionamento, completamente pavimentado, novos jardins, passeios e um parque de merendas com mais de uma dúzia de mesas em pedra oferecidas pelos habitantes locais. São estes os condimentos que o Santuário da Senhora da Paz, no lugar de Barral, freguesia de São João Vila Chã, em Ponte da Barca, tem para oferecer aos peregrinos, em troca de uma visita àquele espaço onde os relatos antigos dão conta de uma aparição de Nossa Senhora, ao jovem pastor Severino Alves, ainda antes das mediáticas aparições em Fátima.

José Sousa, presidente da Confraria da Senhora da Paz, que zela por aquele espaço religioso, adiantou a O MINHO que, desde dezembro do ano passado, têm acorrido àquele santuário peregrinos em maior número do que em anos anteriores, algo que parece revelar uma aparente acalmia em relação à covid-19, e também um “bom trabalho” levado a cabo na divulgação da também conhecida como Senhora do Barral.

As festas, essas, estão marcadas para o último fim de semana de maio, embora as aparições ao pastor tenham sido associadas aos dias 10 e 11. Contudo, e tendo em conta a grande força que Fátima possui no coletivo religioso nacional, a coincidência das datas impede que a confraria assinale com uma festa o ‘milagre’ do pastor barquense nos dias em que terá ocorrido.

Foto: Paulo Jorge Magalhães / O MINHO

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Severino pediu a todos que rezassem

Entre os dias 10 e 11 de maio de 1917, o jovem pastor Severino Alves, residente naquela freguesia, avistou um relâmpago quando se encontrava a pastorear as cabras naquele monte, como deu conta Luíz Arezes, historiador que escreveu o livro “Centenário das Aparições no Barral”, editado em 2017. Terá então ouvido uma voz a pedir para que não se assustasse. À semelhança de Fátima, a Senhora pediu a Severino para “rezar” e contar a todos a “boa nova” de que o lugar era sagrado.

E assim fez o jovem pastor, recolhendo incredulidade de uns e devoção de outros. O caso depressa chegou à arquidiocese de Braga, mas o arcebispo de então achou por bem não se fazer nada e esperar para que o milagre fosse comprovado. A história acabou por cair no esquecimento geral e apenas os habitantes daquele pequeno lugar iam colocando “umas velinhas” para recordar o fenómeno, como explicou a O MINHO o responsável da confraria.

Foto: Paulo Jorge Magalhães / O MINHO

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50 anos para construir santuário

Existem várias teorias para explicar o motivo de estas aparições nunca terem ganhado repercussão mediática, como noutros casos, mas a mais aceite prende-se pela construção tardia de uma capela ou imagem que assinalasse as mesmas. É que, pese embora o milagre do Barral tenha ocorrido em 1917, em plena Grande Guerra, o santuário só foi construído cerca de 50 anos depois, em 1967, quando foi colocada uma imagem da Senhora da Paz. Em 1969, foi inaugurada uma capela (a capelinha, como lhe chamam os locais), e só na década de 70 é que foi construída a cripta subterrânea que assinala o local exato da aparição.

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População dececionada com o apoio da Igreja

Passados mais de 100 anos das aparições, ainda hoje a população do Barral se sente um pouco ‘rescaldada’ pela Igreja Católica, a quem aponta o dedo por não ter feito mais pela divulgação do espaço ao longo do último século. José Sousa espera que esse paradigma possa mudar com a chegada recente de um novo bispo à arquidiocese de Viana, e que estará presente nas celebrações em 21 de maio, para presidir a uma eucaristia. “O antigo bispo não ligava muito, espero que este seja um pouco mais sensível ao nosso santuário e aos peregrinos que por cá passam”, salientou a O MINHO o responsável pela confraria.

Embora “preocupados com o recente aumento de casos de covid”, a confraria espera que a afluência de peregrinos, ao longo do mês de maio, seja acima da média. “Estamos a contar que as pessoas apareçam, mas com isto do covid, não se sabe muito bem”, desabafou. Conta José que, este ano, volta-se a não realizar a grande peregrinação ao Barral, vinda do centro da vila de Ponte da Barca, precisamente por causa da pandemia. “Achamos que ainda era cedo para arriscar. Mas as restantes atividades vão manter-se”, adiantou.

Foto: Paulo Jorge Magalhães / O MINHO

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Maior entusiasmo na esmola

Outra das pretensões de José Sousa é um “maior entusiasmo dos peregrinos em deixarem a sua esmola, para depois verem que o dinheiro que investem resulta em qualquer coisa”. Refere-se às novas obras, que foram também comparticipadas pela Câmara de Ponte da Barca, e a outras que possam surgir nos próximos anos, de forma a melhorar o santuário. “É preciso ver que, de todos os santuários ao redor, e muitos deles até são bem conhecidos, o nosso está a investir, ou seja, as esmolas mostram o retorno”, sentenciou.

Foto: Paulo Jorge Magalhães / O MINHO

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O programa para este ano tem diferentes etapas, todas ‘queimadas’ durante maio, assim como as velas que os peregrinos depositam na cripta e na capela, para pagar as suas promessa. A 11 de maio – esta quarta-feira – data em que se assinalam 105 anos sobre as aparições, será realizada uma eucaristia na Igreja do Coração de Maria, uma imponente construção em local acidentado, ao lado de outra imponente imagem de Nossa Senhora, erguida sobre uma pedra de quartzo, mineral que era extraído daqueles montes em tempos idos e que deu mote para a construção de um museu em pleno santuário. Nos dias 28 e 29 completa-se a festa, com procissão de velas no sábado à noite e uma missa na “capelinha”, às 11:00 horas de domingo. O momento alto da festa ocorre de tarde, junto à igreja – uma missa campal.

Famílias eternizadas

Há algo que une a população do lugar de Barral em relação à Senhora. Todos querem ajudar na sua promoção. Daí, na década de 1970, várias famílias contribuíssem com ajuda monetária, material ou mão de obra para erguer o santuário. Como agradecimento, ainda hoje permanece na cripta um painel de azulejos onde estão retratadas as pessoas do lugar, que ficam assim perenemente lembrados perante todos que visitem o local. Agora, 50 anos depois, o espírito não é diferente. Para construir o novo parque de merendas, cada família do lugar foi convidada a ceder, no mínimo, 150 euros, para contribuir para a implementação de mesas e bancos. E assim fez o povo, passando os descendentes dos antigos também a figurar na memória do espaço, através de uma pedra onde estão registados os nomes de todos os que contribuíram.

Foto: Paulo Jorge Magalhães / O MINHO

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José Sousa apela à visita, afirmando que estão reunidas muitas condições e muito para se ver, desde o santuário, a igreja (que fica afastada alguns 500 metros) e, claro, o museu do quartzo e a cripta, onde está situada a maior pedra de quartzo em estado puro no país, servindo como altar para as celebrações religiosas. “Podem também visitar a aldeia, que é tipicamente minhota, com casas em pedra e muito para ver”, termina, em jeito de convite.

Foto: Paulo Jorge Magalhães / O MINHO

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Milagre ganhou força em Fátima

O ‘milagre’ de Barral só ganhou força aquando do cinquentenário das aparições de Fátima, quando o cónego Avelino Costa, natural da freguesia, foi convidado pelo santuário de Fátima para fazer uma conferência e disseram-lhe lá que havia uma noticia num jornal da época que dava conta da aparição se ter realizado primeiro em Ponte da Barca.

E só aí se iniciou todo o processo para tornar o lugar de Barral numa nova rota mariana. Durante os anos 70 e 80 houve uma grande afluência, mas com o virar do milénio, começou a decrescer, depois da morte do cónego.

A partir de 2000, e após nova insistência das gentes locais, o santuário voltou a ser divulgado, e começaram a lá acorrer milhares de peregrinos todos os anos, número que vinha em crescendo até 2019, estagnando depois com a pandemia.

O santuário da Senhora da Paz conta hoje com uma capela, uma igreja, um museu, espaço de merendas e várias imagens que recordam Nossa Senhora, o pastor Severino e o cónego Avelino.

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